sábado, 17 de janeiro de 2009

É CARNAVAL DE PERNAMBUCO


É CARNAVAL DE PERNAMBUCO
Thelma Regina Siqueira Linhares

O carnaval de Pernambuco continua sendo um dos mais festejados, animados e tradicionais do Brasil. Seu calendário, com certeza, se antecipa e se estende, muito além, do tríduo momesco. Alguns elementos já não são vivenciados, como por exemplo, o corso, o mela-mela, as batalhas de confetes e serpentinas. Outros, já sem a força que exerciam há algumas décadas, como os bailes dos clubes sociais e as fantasias luxuosas. Enquanto características novas vão sendo incorporadas e assimiladas como as fantasias simples compradas no camelô, os abadás e as camisetas que passam a compor o visual do folião de hoje. Este, sim, mantém a alegria, a irreverência e a extravagância de todas as épocas.

Várias cidades pernambucanas são consideradas pólos carnavalescos, apresentando peculiaridades nos festejos de Momo, destacando-se entre elas:
Recife – terra do frevo, do maracatu de baque-virado e dos caboclinhos;
Olinda – terra do frevo e dos bonecos gigantes;
Nazaré da Mata – terra do maracatu rural e
Bezerros – terra do papangu.

“Ei pessoal!
Vem moçada
Carnaval começa
No Galo da Madrugada!”

No sábado gordo de zé-pereira, as ruas do centro comercial do Recife são, literalmente, tomadas pelos foliões do Galo da Madrugada. Milhares de foliões. Comprovadamente, a maior agremiação carnavalesca do Planeta – conforme inclusão no Guiness Book. Esse destaque foi registrado em 1995 e vem se mantendo e batendo recordes desde então.
O Clube de Máscaras Galo da Madrugada fez seu primeiro desfile em 1978, para reviver os carnavais do passado e, ano a ano, vem crescendo e empolgando os foliões dos quatro cantos da Terra. No seu desfile oficial, os foliões resgatam as fantasias, muitas delas inspiradas nos modelos dos carnavais de outrora: palhaços, pierrots, colombinas, almas, havaianas, odaliscas e árabes. Além desses, o povo é parte integrante do bloco. Fantasiado ou não, usando camisetas alusivas ao Galo da Madrugada ou a blocos seguidores (Rabo do Galo, Galinha da Madrugada, Franga da Noite entre outros), o povão canta, dança, bebe, sua e vibra, desde à concentração, ao amanhecer, até à dispersão, quando o sol já se pôs...
Acompanhando os foliões, os carros alegóricos e os trios elétricos, com orquestras de frevo pernambucano, com muito metal e instrumentos de cordas. As freviocas. Cantores pernambucanos e convidados revezam-se nas dezenas de trios elétricos que acompanham o Galo da Madrugada, todos comprometidos com os frevos de Pernambuco.
O desfile do Galo da Madrugada começa na Rua da Concórdia, que já foi o centro do carnaval recifense do início do século passado e toma as ruas circunvizinhas dos bairros de São José e Boa Vista, em mais de quatro quilômetros de euforia. O rio Capibaribe, inclusive, faz parte do cenário momesco, onde o bloco A Galinha D’água faz seu carnaval aquático, congregando dezenas de catamarães, iates e lanchas caracterizadas.
Três figuras gigantescas não podem ser esquecidas: O Galo, que adorna a congruência da Rua do Sol com a Av. Guararapes e um casal real – o Rei e a Rainha do maracatu – que empresta majestade às águas do Rio Capibaribe. E a paisagem recifense, tão bela e tão própria, com suas pontes e rio, se veste de fantasia, colorido e animação, de um mar de gente compromissada com a alegria.

“O frevo é quente
Alegria de toda essa gente
Contente
Com muito orgulho de lá!”

O frevo é um capítulo especial no carnaval de Pernambuco. Talvez o que mais personaliza o ciclo carnavalesco no Estado.
Suas origens musicais remontam a meados do século XIX, no repertório das bandas militares. Naquele tempo, a figura do capoeira, munido de bastão e que vinha abrindo alas entre as bandas militares, tornava o frevo uma luta, uma guerra. Com feridos e até mortos. Já o termo frevo vem da corruptela frever, como o povo iletrado assim falava ferver, como significado de rebuliço, efervescência e multidão.
Frevo de rua (só instrumental). Frevo canção (com introdução orquestral). Frevo de bloco (executado por orquestras de pau e corda). Música e dança. Passista é quem dança, quem faz as coreografias do frevo. Dança individual, criativa. Com muitos passos já catalogados e ensinados, principalmente por Mestre Nascimento do Passo e pela garota Safira, representante da novíssima geração de passistas. Saca-rolha, parafuso, tesoura, corta jaca, dobradiça, ferrolho, boneco de Olinda são alguns exemplos desses passos consagrados. Mas não basta aprendê-los e copiá-los. A improvisação e criatividade estão sempre presentes num bom passista, que faz uso da sombrinha, pequena e colorida, que lhe permiti manter o equilíbrio nas manobras coreográficas da dança.

“É da coroa imperial
É maracatu
Ele é da casa real.”

As origens do maracatu nação ou de baque-virado remontam às referências de coroação dos reis de Congo e de Angola e são citadas em documentos do século XVII, em especial, nas festas religiosas católicas de N. Sra. dos Prazeres e N. Sra. do Rosário de Santo Antônio. Os reis negros, compareciam àquelas solenidades, sob um grande pálio, ladeados por sua corte. A bandeira e instrumentos de percussão eram indispensáveis em tais cerimônias. E sob severa vigilância das autoridades religiosas e policiais. Em meados de 1850, já se usava o termo maracatu ou nação para designar reuniões de negros, ainda escravos. Os cortejos se faziam presentes, também no carnaval, inclusive com a boneca – a Calunga – um dos elementos sagrados do maracatu. O chefe temporal e espiritual era o babalorixá dos terreiros de nagô.
Hoje, os mais antigos maracatus de baque-virado continuam mantendo as tradições dos antepassados africanos, destacando-se entre elas, os maracatus: Nação do Elefante (1800), Nação do Leão Coroado (1863), Nação da Estrela Brilhante (1910), Nação Porto Rico (1915) e Nação Cambinda Estrela (1953).

Outra característica do carnaval pernambucano e relativa ao maracatu é a Noite dos Tambores Silenciosos, que acontece a zero hora da segunda-feira, no Pátio do Terço, em reverência à N. Sra. do Rosário dos Pretos, protetora dos negros, desde os tempos do Brasil-colônia. Os maracatus de baque-virado, com seus reis, rainhas, princesas, príncipes, toda a corte, enfim, e os grupos de afoxés realizam os rituais, anteriormente restritos aos seus integrantes e seguidores, mas que arrastam cada vez mais participantes e curiosos.

Os caboclinhos ou cabocolinhos expressam toda a influência indígena da miscegenação brasileira. A coreografia dos seus integrantes é marcada pelo som dos estalidos das preacas (arco e flecha), acompanhados por gaitas ou flautim, caracaxás, tarol e surdo. As principais figuras são rei (cacique), rainha (cacica), perós (indiozinhos), porta-estandartes, pajé, curandeiro, caboclinhos e caboclinhas. Vestindo tangas e cocar de penas, usam muitos adereços: colares, pulseiras e braçadeiras.

“A la ursa quer dinheiro
Quem não dé é pirangueiro...”

A la ursa é, principalmente, brincadeira de criança, que aproveita para juntar um dinheirinho. Cantando o refrão e batendo em latas, a meninada percorre a vizinhança, para fazer a coleta e aproveitar a farra. Em especial, nos bairros mais populares e da periferia das principais cidades pernambucanas.


“Eu quero ver este ano
A juventude dourada
Camisa aberta no peito
Pulando sem preconceito.”

Os bailes nos clubes sociais do Recife caíram de moda na última década do século XX, embora, algumas tentativas de popularizá-los, novamente, sejam feitas. Mas sem aquele brilho e glamor que lhes eram tão peculiares. As noites de folia nos salões dos Clubes Português, Internacional, Nautico, Sport e Santa Cruz e suas matinês (para a criançada) faziam os frevos de Capiba, Nélson Ferreira, João Santiago, Jota Miquiles e Alceu Valença, entre tantos, muito mais vibrantes ao som das orquestras famosas dos maestros da terra – Duda, Zé Menezes, Guerra Peixe, Super Ohara, Banda de Pau e Corda e Quinteto Violado. Naquela época, muitos cantores da MPB eram convidados para fazer os carnavais dos clubes. Jair Rodrigues, Beth Carvalho, Zé Kete, Noite Ilustrada e Moacir Franco eram os mais requisitados.


“Ao som dos clarins de momo
O povo aclama com todo ardor
E Elefante exaltando as suas tradições
E também seu esplendor”

Enquanto Recife, nas décadas passadas, se destacava pelo carnaval de clubes sociais e desfiles oficiais, Olinda vinha fazendo, em suas ladeiras estreitas, o autêntico carnaval de rua - participativo, criativo e irreverente. Suas agremiações tradicionais, nas décadas de 60, 70 e 80, desfilavam sem passarelas oficiais e ingressos cobrados, concentrando foliões de todas as partes. Elefante (no domingo), Pitombeiras dos Quatro Cantos (na segunda-feira), Vassourinhas (na terça-feira) e o Bacalhau na Vara (na quarta-feira, organizado por um garçon - o Batata - para que esses profissionais, também, pudessem brincar o carnaval, mesmo que tardiamente... talvez, tenha sido o ponto de partida para a resistência do carnaval brasileiro que, na última década do século XX, em algumas cidades, ultrapassa o feriado de Cinzas e o início da Quaresma.)
E multiplicam-se os novos blocos e troças. A cada ano, novas agremiações são criadas. Muitas vezes, basta o som de um piston, desafinado até, para arrastar a multidão... E nomes criativos, irreverentes e, às vezes, obscenos ficam consagrados: Ceroula, Eu acho é pouco, Siri na lata, A corda, A porta, Segura a coisa, Segura o cu, etc. Alguns têm a versão infantil, com dia próprio de desfile: Ceroulinha, Eu acho é pouquinho.


Os bonecos gigantes caracterizam o carnaval de Olinda. Há mais de meio-século surgiu o Homem da Meia-Noite (1932), um dos mais antigos e populares dos gigantes carnavalescos. E muitos outros vieram: A Mulher do Meio-Dia (que no carnaval de 1990 se casou com o Homem da Meia-Noite, numa cerimônia complicada, por causa do fuso horário dos noivos...), O Menino da Tarde, A Menina da Tarde, O Turista, O Camisão, O Guarda-Noturno, Jonh Travolta, O Barbapapa, etc. Muitos deles foram criados por Sílvio Botelho, que passou a ser considerado o pai dos bonecos gigantes, dando-lhes mais leveza. Com mais de três metros de altura e vinte quilos de peso, o carregador de um boneco gigante é, literalmente, as suas pernas, obrigando-o a “olhar, comer e beber pela braguilha das enormes calças”, como já foi citado por Olimpio Bonald Neto.
Na manhã da terça-feira há o encontro dos bonecos de Olinda, no bairro de Guadalupe, ocasião em que dezenas de gigantes se encontram para delírio dos foliões.


Um outro aspecto peculiar do carnaval da Marim dos Caetés são as fantasias. Extremamente simples e criativas fazem a alegria do folião olindense – traduza-se oriundo de qualquer recanto da Terra, pois os turistas são maioria naquela cidade pernambucana durante o carnaval. Brincando lado a lado com o lorde (fantasia incorporada por um morador olindense, há anos) estão o banho no box, o ônibus, a nega maluca, padre, anjo, enfermeira, o lalau, burrinhas, etc. E muita máscara pintada no rosto.


Em cidades da zona canavieira, Carpina, Tracunhaém, Timbaúba, Timbira, Igarassu, Goiana e, especialmente, Nazaré da Mata, destacam-se os maracatus rurais ou de baque solto. Há algumas décadas foram considerados “maracatus descaracterizados, degenerados, de 2ª categoria”, conforme registrou Roberto Câmara Benjamim. Foram até proibidos de desfilar em lugares oficiais pelos organizadores do carnaval recifense... Suas origens são desconhecidas e os mais antigos foram fundados há mais de oitenta anos. Percebe-se a influência de vários folguedos. Neles destacam-se as figuras sujas (Mateus, Catirina, Burra, Babau, Caçador), os caboclos de lança, os caboclos de pena, as baianas, o rei, a rainha, o valete e a dama (protegidos por um grande guarda-chuvas), mestre e os músicos.
A figura símbolo do maracatu rural é o caboclo de lança ou lanceiro, que veste um ceroulão (calça de chitão), a fofa (calça frouxa com franja por cima do ceroulão), meias de jogador, camisa mangas compridas e em cores vivas e a grande gola toda bordada por milhares de lantejoulas e missangas. O surrão, com quatro ou cinco chocalhos, armados por galhos e que marcam o ritmo e o andar do caboclo de lança. Um lenço amarrado à cabeça e, sobre ele, um chapéu de palha ornado de fitas multicoloridas ou de uma única cor, de papel celofane. Empunha uma lança com mais de dois metros, recoberta de fitas coloridas. Não pode faltar um óculos escuros, um cravo branco seguro entre os dentes e um galho de arruda atrás da orelha. Tudo para manter o corpo fechado, pois o caboclo sai “atuado” para a brincadeira. Como percorre a pé longas distâncias, por estradas e atalhos, o som dos chocalhos no surrão anuncia, de longe, a sua presença.

“Vem, vem, vem
Fazer parte deste cordão
O Recife tem um lugar
Pra você dentro do coração.”

Como aqui foi registrado, especialmente para a Jangada Brasil (www.jangadabrasil.com.br) o ciclo carnavalesco em Pernambuco é muito rico em ritmos e cores.
Frevo. Maracatu. Caboclinho. Coco. Ciranda. Urso. La Ursa. Papangu. Máscaras.
Que são vivenciados e divulgados para o mundo ao vivo e a cores.
Mas o bom, o bom mesmo, é fazer parte. Ser um na multidão. Se não for este ano, quem sabe no próximo, pois
“Pelas ruas do Recife
Todo ano tem
Quatro dias de folia
E alegria tem
Pra mostrar que o frevo e animação
Marcam o passo no compasso
No mesmo cordão.”


Referências Bibliográficas
* CASCUDO, Luiz da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro.
* SOUTO MAIOR, Mário e SILVA, Leonardo Dantas. Antologia do Carnaval do Recife.
Recife: Editora Massangana. 1991.
* BONALD NETO, Olímpio. Os Gigantes Foliões em Pernambuco. Olinda: GCI Gráfica e
Editora Ltda. 1992.
* LIMA, Cláudia Maria de Assis Rocha. História do Carnaval. Edição Especial . Ano III.
1998.
* SILVA, Leonardo Dantas. Histórias do Carnaval do Recife. 1998.
* Encarte Cultural Brincantes. 1998.
* Jornais locais: Diário de Pernambuco. Jornal do Commércio. A Folha de Pernambuco.
* Micromonografias da série Folclore. FUNDAJ-Fundação Joaquim Nabuco.


(www.usinadeletras.com.br em 08/02/2003


Publicado no site: O Melhor da Web em 17/01/2009
Código do Texto: 12025 1ª publicação neste blog em 17/01/2009.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

RITMOS MUSICAIS


RITMOS MUSICAIS
Thelma Regina Siqueira Linhares

Músicas há em mim
Frevo no turbilhão das emoções
O compasso diário é ao som do Forró, Xaxado e Baião
Na Ciranda tenho a expressão dos sentimentos profundos
O ritmo fisiológico é no Maracatu e Axé que encontro eco
No Samba sambo, rebolo, embolo
E à noite Cantigas de Ninar embalam os sonhos.

Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos - 51º volume - CBJE - RJ

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

PRESENÇA MASCATE NAS PRAIAS PERNAMBUCANAS


PRESENÇA MASCATE NAS PRAIAS PERNAMBUCANAS
Thelma Regina Siqueira Linhares (*)

O litoral pernambucano abrange 187 km de praias, desde a barra do rio Goiana, na praia de Carne de Vaca (em Goiana na divisa com a Paraíba, ao Norte) até a foz do rio Persininga, na praia da Coroa Grande (no limite de São José da Coroa Grande com Alagoas, ao Sul). A essa extensão de belas praias, algumas urbanas e densamente povoadas, outras quase inexploradas, acrescenta-se o arquipélago de Fernando de Noronha, distante 545 km do Recife e que, com suas 21 ilhotas, de origem vulcânica, emerge em pleno Oceano Atlântico, numa paisagem paradisíaca, reconhecida em todo o planeta.
O Oceano Atlântico, com suas águas mansas e tépidas, banha a costa pernambucana, protegida pela barreira natural dos arrecifes ou recifes, que funciona como um quebra-mar. O nome do estado, de origem tupi, vem de paranã-puk, significando mar furado, alusão ao canal de Santa Cruz, que cerca a ilha de Itamaracá. Enquanto o nome da capital – Recife – decorre dos recifes, bancos de corais e que, já nos tempos coloniais, tinha delineada a vocação de porto, fundamentada na proliferação dos mascates. Inclusive, houve a Guerra dos Mascates que durou de 1710 a 1714, conseqüência da mudança da sede de governo da capitania de Olinda (que concentrava os ricos senhores de engenhos) para Recife (habitada pelos mascates, comerciantes portugueses). O impasse foi resolvido com a permanência do Recife como sede de governo, passando o governador a residir seis meses em cada vila...
As cidades banhadas pelo Oceano Atlântico, seguindo-se o sentido Norte/Sul, totalizam 14 municípios, a saber: Goiana, Itamaracá, Igarassu, Abreu e Lima, Paulista, Olinda, Recife, Jaboatão dos Guararapes, Cabo de Santo Agostinho, Ipojuca, Sirinhaém, Tamandaré (Rio Formoso), Barreiros e São José da Coroa Grande. Alguns municípios fazem parte da Região Metropolitana do Recife, com praias urbanas e de grande densidade demográfica, com a descaracterização das paisagens litorâneas, enquanto outras cidades, embora pólo turístico, apresentam praias ainda inexploradas, refúgios paradisíacos, com extensos coqueirais.
Ao clima tropical, com temperaturas sempre elevadas e poucas variações térmicas durante o ano, associa-se à vegetação litorânea. Nas proximidades da foz de rios, na mistura das águas doce com a salgada, destacam-se as áreas de mangues, berçário para muitas espécies animais. Alguns manguezais estão sendo preservados e repostos. Nas praias, plantas rasteiras e esparsas, cobrem as areias brancas e finas. Na orla marítima, especialmente nas praias mais afastadas dos grandes centros urbanos, aparecem imensos coqueirais. E lembrar que coqueiros e mangueiras, tão bem aclimatados, vieram com o branco colonizador e que disputaram terreno com os nativos cajueiros... Há, ainda, manchas de Mata Atlântica em algumas praias pernambucanas.
Em relação ao relevo, as praias pernambucanas estão, em sua maioria, nas planícies litorâneas ou costeiras, quase ao nível do mar, o que favorece a invasão das águas durante as ressacas, em especial, no mês de agosto, e cuja fúria chega a destruir calçadas, avenidas e diques de contenção. Em alguns e raros trechos do litoral, há praias de falésias, terrenos em tabuleiros que, abruptamente, declinam para o mar, responsabilizando-se por um visual bem diferente, da costa de Pernambuco.
A movimentação mascate no litoral pernambucano é intensa, haja vista, a presença do astro-rei, em quase todos os 365 dias do ano, principalmente nas praias urbanas ou nas de pólos turísticos. E quase tudo é negociado. Comida, bebida, artesanato, serviços etc.
Há os quiosques padronizados, como aqueles que ficam na orla marítima das praias de Recife (Boa Viagem e Pina) e Jaboatão dos Guararapes, por exemplo. Vendem água de coco, lanches, cartões de telefone público, fichas de chuveiros dos calçadões, postais, artesanato e outros souvenir. Há as barracas com cobertura de palhas de coqueiro na beira-mar e que funcionam como verdadeiros barzinhos, onde a culinária típica, à base de peixe e frutos-do-mar é regada a cerveja gelada e refrigerantes, muito comum nas praias de Olinda, Paulista e Itamaracá. Há os barraqueiros instalados nas areias das praias urbanas disponibilizando serviços personalizados e com espaço geográfico previamente definido. Cadeiras-espreguiçadeiras, guarda-sol, banquinhos, lanches rápidos, cervejas, caipirinhas, refrigerantes etc. Diariamente, essa infra-estrutura é trazida à praia em carroças empurradas pelo próprio barraqueiro ou em kombis e caminhões, dependendo do poder aquisitivo do mesmo. Alguns terceirizam os serviços, têm uma grande equipe de apoio, que chega a envolver famílias. Identificam-se por nomes ou siglas e usam camisas ou camisetas uniformizadas. Se não têm o pedido do cliente, buscam entre os concorrentes o produto desejado. Afinal, prevalece aquele conceito de que quem manda é o freguês.... E há aqueles ambulantes, literalmente. Empurrando carrocinhas, equilibrando caixas térmicas ou de isopor, baldes, bacias, sacos, varas nos ombros, vão oferecendo seus produtos aos banhistas e turistas. Às vezes, no gogó, chamando atenção com pregões simples. Às vezes, chegando perto do cliente, insistindo. Destaque especial para alguns pregões que um ouvido atento pode captar em minutos:
"Camarão, camarão. Um é três; dois é cinco!".
"Chegou tradicional... casquinho (de caranguejo) chegou".
"Só original! Quer brilhar?" (para boné com lantejoulas).
"Olha ostra, ostra!"
"Olha a batatinha, olha!"
"Bronzeador... bronzeador... bronzeador."
"Olha o amendoinho!" (para amendoim).
"Bolsa. Bolsa e chapéu."
Nem todo produto é 100% confiável, mas sempre tem um freguês que se agrada da mercadoria. E, como é diversificada! Cangas, saídas de banho, chapéus, bonés e viseiras. Protetores solares e bronzeadores. Óculos escuros. Bijuterias. Artesanato em barro, palha, tecido, conchinhas, ostras e materiais reciclados. Quadros. Raspa-raspa geladinho. Sorvetes e picolés de grandes e pequenas indústrias. Água de coco. Frutas da época (abacaxis, mangas, jambos, melancias etc). Saladas de frutas. Queijo assado. Cachorros-quente. Espetinhos de diversos sabores. Sanduíches variados e naturais. Bebidas ao gosto do freguês: cachaça, caipirinha, cerveja, refrigerantes. Toda sorte de frutos-do-mar: caranguejo, camarão, caldeirada, bobó de camarão, moqueca de camarão e de peixe, ostras etc. Caldinhos diversos. Ovos de codorna. Amendoim. Algodão doce. Batatinha-frita. Pipas e cata-ventos para deleite da garotada. Bexigas plásticas com bolas de soprar. Brinquedos infláveis. Periquitos australianos. CDs e vídeos piratas. Repentistas e violeiros para apresentações ao vivo. Folhetos de cordel. Cartomantes. Fotógrafos.
Num fim-de-semana ou num feriado é muito dinâmica a presença mascate nas praias pernambucanas, que o banhista ou turista pode conferir. Sem precisar sair debaixo da sombra do guarda-sol, enquanto toma uma refrescante água de coco, joga conversa fora e aprecia a bela paisagem de céu, sol e mar. Ainda, com direito de visualizar uma lancha ou jangada em alto-mar, um ultra-leve cortando o ar e pipas colorindo o azul do céu. Dá para recarregar as baterias emocionais do stress cotidiano em tão democrático lazer.
Bom mesmo é participar. Fica o convite.

(*) Professora e Pesquisadora de Folclore.
Recife/PE
novembro de 2005

Colaboração da autora à Jangada Brasil
http://www.jangadabrasil.com.br/revista/outubro95/of95010c.asp

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

NÃO CUSTA NADA



NÃO CUSTA NADA (*)
Thelma Regina Siqueira Linhares


Não custa nada:
Ser gentil.
Sorrir.
Pedir.
Agradecer.
Dar passagem...
Ser ponte.

Não custa nada:
Vivenciar
pequenos e antigos valores
minimizados e deletados
no corre-corre do dia-a-dia.


(*) III Concurso de Poesia da Biblioteca Gilberto Freyre . SESC Santo Amaro - Recife/PE. Prêmio Joaquim Cardozo (3° colocado). 14/12/2007.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

LEMBRETE - meu cartão de Natal 2008


A todas e todos que lerem, minha mensagem natalina o lembrete que vale para todos os dias, do ano velho ou do ano novo. Muita paz, sempre! Thelma Regina

sábado, 20 de dezembro de 2008

POR QUÊ?


POR QUÊ?
Thelma Regina Siqueira Linhares

Por quê
esperar
365 dias
para fazer renascer a esperança
se
a cada dia
o sol renasce
em cada nova aurora?!

AGENDA 2007 do SIMPERE

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

GUIRLANDA, um enfeite natalino que se populariza no Brasil


GUIRLANDA, um enfeite natalino que se populariza no Brasil
Thelma Regina Siqueira Linhares

É consenso considerar o Natal como festa universal e simbólica do nascimento do Menino-Jesus, ocorrido há mais de dois milênios, em Belém. Consenso, também, que tal fato divide o tempo histórico da humanidade em AC e DC – antes de Cristo e depois de Cristo, respectivamente. Independentemente de fé e religião, o Natal, vem ao longo dos séculos, incorporando símbolos, pagãos e profanos, anteriores, inclusive, ao próprio fato do nascimento do Menino-Deus e criação do cristianismo. É um ciclo – o Ciclo Natalino – com características próprias que se reflete nas tradições folclóricas, populares e clássicas. Símbolos natalinos diversos combinam-se para dar especificidade ao período, que cada vez mais se estica, apoiado pela mídia e pelo marketing e estimulando o comércio, cujas vendas são as melhores do ano.

A guirlanda é um desses símbolos cada vez mais presente na decoração natalina do Brasil. O cinema americano aparece como grande responsável pela sua popularização no mundo cristão ocidental, a partir da segunda metade do século XX. Decorar a porta da frente, do lado de fora, com guirlanda, principalmente se tiver sido presenteada, é atrair bons fluídos, pois se trata de um adorno de “chamamento” de boas-vindas. É tudo de bom!
Em português, a guirlanda recebe várias denominações. Segundo o dicionário Houaiss, é grinalda “coroa de flores”. Festão ornamental feito de flores, frutas e/ou ramagens entrelaçadas. Para grinalda oferece outros nomes: capela, coroa, diadema, estema, guirnalda, láurea, lauríola, louro e pancárpia.

A guirlanda pode ser confeccionada por muitos materiais. Cipós, fitas, plásticos, palhas secas, bombons, chocolates são algumas versões profanas popularizadas. Industriais ou artesanalmente feitas. Material reciclado, igualmente, vem ganhando terreno na confecção de guirlandas no Brasil. Também, ilustram cartões e transformam-se em adereços e enfeites de árvores de natal.

Tradicionalmente nos países nórdicos, a guirlanda é uma mandala (cujo círculo lembra que a vida é um ciclo de nascimento à morte) coberta por folhagens (de heras, pinheiros ou azevinhos que oferecem proteção no inverno gelado, afugentando a má-sorte e agouros). Uma fita vermelha (representando o amor de Deus pela humanidade) e as velas acesas (a fé e a alegria) completam a guirlanda ou Coroa de Avezinha.
A guirlanda ou Coroa do Advento, considerando-se seu aspecto religioso, é um dos mais significativos símbolos natalinos, pois anuncia a boa-nova no Advento - preparando para o Natal - momento de reflexão, de busca do perdão, para vivenciar o Amor e a Paz pregados por Jesus Cristo, nas religiões cristãs. Nessa guirlanda, há quatro velas. A cada domingo de dezembro, uma é acesa, numa atitude de preparação para o grande acontecimento.