MAIS QUE UM SIMPLES
ESPELHO D’ÁGUA (*)
Thelma Regina Siqueira
Linhares (**)
M
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ais que um simples
espelho d’água a
refletir belezas urbanas, o rio Capibaribe, poderia ser a imagem do respeito ao
meio-ambiente, o símbolo do desenvolvimento sustentável de um povo que há muito
se auto-proclamou “leão do norte”.
Verdade que, em sua nascente no Agreste, é frágil e cristalino
e, à medida que corre em direção às águas tépidas do Oceano Atlântico, banhando
dezenas de cidades e paisagens pernambucanas, tem seu leito acrescido por mais
de meia centena de afluentes. E vai ficando forte, imponente e... poluído.
Especialmente nesse último século, sentiu a degradação em suas próprias águas a
repercutir, ainda, neste milênio. O desenvolvimento urbano, o aumento
populacional, o progresso e a falta de políticas públicas que visem à melhoria
da qualidade de vida e o respeito ao meio-ambiente, entre outros fatores, são
refletidos em suas águas. Adoecendo-as. Poluindo-as.
Mais que um simples
espelho d’água a
refletir belezas urbanas, o rio Capibaribe, merecia ser mais que cartão postal
a percorrer o planeta, em cujas imagens não captam suas águas fétidas, seu
frágil ecossistema minado por esgotos, seu manguezal aqui e ali buscando
sobreviver... Assim, fotografado, filmado, postado, incorporado às lembranças e
eventos turísticos, o mais recifense dos rios pernambucanos, segue o seu destino.
Único e múltiplo em si mesmo.
Mais que um simples
espelho d’água a
refletir belezas urbanas, o rio Capibaribe, deveria ser a inspiração maior de
poetas pernambucanos que buscaram e buscam na natureza a melhor palavra.
Favorecer alumbramentos, sempre! E não mais ser a trilha de Severinos e
Severinas.
Mais que um simples
espelho d’água a
refletir belezas urbanas, o rio Capibaribe, deveria participar, efetivamente,
da vida de um povo, com seus acertos e desacertos históricos. Testemunhando. Interagindo.
Influindo. Presente na construção cultural dos que aqui habitam e dividem o
espaço geográfico com o rio das capivaras. Antes que seja, definitivamente,
descapibaribado.
(*) Texto classificado em 2º lugar no 1º Concurso de Contos e Crônicas Luis Jardim (2003), promovido pela Biblioteca Popular de Casa Amarela e Prefeitura da Cidade do Recife.
(**) Professora, pesquisadora do folclore brasileiro e escritora.
Mais que um simples espelho d'água publicado em http://usinadeletras.com.br, em Crônicas, 11/01/2004.
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