domingo, 15 de março de 2009

MON PETIT CHIEN


MON PETIT CHIEN
Thelma Regina Siqueira Linhares

Nasceu Gugu
e assim chegou para nós.
Bebê, ainda,
metade do tamanho do adulto que ficou.
Bolinha felpuda.
Albino.
O focinho - botãozinho marrom -
e os olhos esverdeados
chamavam atenção.
Logo foi batizado:
TICO.
Tiquinho...
Ser o menino de mamãe
demorou um pouquinho
porque, entre seus medos,
o de caninos.
Há uma década.
E uma década é muito tempo prá cachorro,
literalmente.
Problemas de saúde já são vários...
e uma certeza:
Tico é
e sempre será
mon petit chien!
Mon petit chien de mère...

quarta-feira, 11 de março de 2009

QUESTÕES DE GÊNERO E FOLCLORE


QUESTÕES DE GÊNERO E FOLCLORE (*)
Thelma Regina Siqueira Linhares (**)


Com o aparecimento do primeiro homem e da primeira mulher, as especificidades de gênero vêm sendo construídas e reconstruídas ao longo das diferentes culturas e sociedades humanas. Mas foi no último século, caracterizado por novos conhecimentos científicos, uma infinidade de invenções tecnológicas e um cem número de transformações sócio-culturais, que as relações de gênero começaram a ser questionadas, desequilibrando o status quo, do relacionamento homem-mulher no planeta Terra. E, assim, interferindo, modificando e reinventando a própria história da humanidade.

O tema desta micromonografia foi escolhido a partir da evolução observada nos absorventes higiênicos. Das toalhinhas higiênicas e dos primeiros absorventes presos em cintos com presilhas e calcinhas plásticas, da década de 70 aos atuais absorventes, aderentes, com ou sem abas, anatômicos, fininhos, seguros, há um passo largo em prol da higiene e da comodidade feminina, inegavelmente. E, como uma coisa puxa outra, a curiosidade de pesquisar o universo do folclore feminino foi aguçada. Como mulheres vivenciam conceitos e preconceitos assimilados em outras etapas de vida? Como tabus, superstições e crendices são incorporadas pelas jovens da era da informática? Como e o que, desse rico conteúdo folclórico, serão absorvidos pelas gerações futuras?

Na expectativa de encontrar respostas para esses e outros questionamentos, foi iniciada uma pesquisa bibliográfica e de campo, no ano de 2002. Os primeiros dados coletados permitiram uma versão preliminar publicada na revista on line Jangada Brasil,
nº 44, em abril de 2002, com o título de Coisas de Mulher e Folclore. (www.jangadabrasil.com.br). Destaque especial para as superstições e crendices ligadas à fertilidade feminina. Menstruação, gravidez, enjôo, sexo do bebê e parto foram temas abordados e exemplificados, então.

Agora, o tema em foco é retomado em um novo texto, revisto e ampliado, objetivando uma abordagem folclórica mais detalhada e definida nas relações de gênero. Para direcionar didaticamente esta micromonografia, foram consideradas as diferentes fases da fisiologia feminina a saber: menina, menina-moça e mulher.
Fica disponibilizado, por tempo indeterminado, o e-mail folcloremulher@bol.com.br para eventuais colaborações, sugestões e críticas. Sempre bem-vindas!

Menina
A infância teve tratamento especial no século XX, objetivando minimizar distorções, garantir direitos, assegurar cidadania, embora, ainda, muito a construir. O Estatuto da Criança e do Adolescente e os Conselhos Tutelares são alguns dos instrumentos políticos que revelam um novo olhar a esse segmento da vida humana. E sob o amparo legal.

No contexto social do ambiente familiar, quanta transformação! Cabia à mulher
– mãe, babá e, anteriormente, mucama – a socialização dos fatos folclóricos e do saber socialmente necessário às novas gerações, em seus primeiros anos de vida. Com a modificação dos papéis sociais da mulher-mãe, agora mão-de-obra responsável, também, pelo sustento e sobrevivência da família, é a escola de Educação Infantil (antigo pré-escolar) e a de Educação Fundamental (antigos 1º e 2º graus), que cabe tal função social. Incluir em suas atividades pedagógicas cotidianas a prática das brincadeiras populares, por exemplo, como componente socializador de meninas e meninos, é uma medida eficaz para o aprendizado do folclore entre as crianças brasileiras. E, assim, novas relações sociais vão sendo estabelecidas, novos conceitos e saberes vão sendo construídos.

Usar roupas de cor rosa, só no enxoval da menina. Brincar de casinha e utensílios do lar, artesanalmente feitos ou produzidos em indústrias. Panelinhas de barro, miniaturas de aparelhos domésticos, industrializados, às vezes, com funções reais disponíveis. Boneca de pano – as antigas e populares bruxinhas – as variadas versões da Barbie e todos os seus sonhos de consumo. São alguns exemplos da vivência do folclore na fase mulher-menina. Os bonecos de super-heróis, másculos e viris, ficam para os meninos... Dentre as brincadeiras populares próprias do sexo frágil, figuram: pular amarelinha ou academia, corda, elástico (popularizado na década de 90), passar anel e brincar de roda. Histórias da carochinha, bruxas, fadas e príncipes surgem na infância e acompanham os sonhos da menina-moça e, às vezes, até as fantasias da mulher madura, vida à fora. Soltar papagaio ou pipa, ainda, é tabu entre as meninas. Como jogar bola de gude e soltar pião. Jogar futebol, aos poucos, vem quebrando resistências, incentivado por seleções femininas mundiais, inclusive, nacionais. Afinal, somos penta-campeões masculinos de futebol e derrubar preconceitos é preciso. Jogar capoeira, tocar instrumentos de percussão já refletem alguma mudança de comportamento da relação homem/mulher, pela crescente popularização entre meninas e jovens, em especial, na periferia das cidades.

Menina-moça
O corpo da menina, mais cedo que no menino, passa a sofrer transformações. A puberdade começa e, em breve, dá lugar à adolescência. Rebeldia. Transgressões sociais. Novas descobertas. Tudo tem a ver com a adolescência que quer, logo logo, definir e ocupar seu lugar no mundo. É a época, inclusive, do surgimento de cravos e espinhas – o terror da menina-moça. Para acabar com esse mal, duas receitas, dizem, infalíveis: passar na área afetada pela acne, a primeira urina do dia ou o mênstruo do primeiro dia da menstruação. Em ambos os casos, deixar agir por alguns minutos, lavando com bastante água e o sabonete de uso diário. Repetir uma ou outra receita até atingir os objetivos... Recomendado, igualmente, para os adolescentes, no caso da primeira urina.

A virgindade, tabu de milênios e posta em cheque há algumas décadas, com a liberação feminina e o advento da pílula, entre outros, tem seu quinhão folclórico, também. Um método, inquestionável de provar a virgindade da donzela: pegar um cordão, cujo tamanho é obtido pelo dobro da medida do seu pescoço. Segurando as duas pontas do cordão nos dentes, tentar passá-lo pela cabeça. Se não conseguir, a jovem, ainda, é virgem.

Talvez, nessa fase biológica da mulher, a prática das superstições de caráter amoroso do ciclo junino sejam mais comuns. Especialmente, no dia dos namorados, véspera de Santo Antônio, o santo casamenteiro celebrado a 13 de junho, jovens namoradeiras, mal-amadas ou encalhadas, buscam desvendar em adivinhações, crendices e superstições diversas, o futuro amoroso que as aguardam. Rezando, lentamente, a oração Salve Rainha, deixa-se pingar a vela num prato ou bacia, virgem, com água, até “mostrai-nos!”. A letra que for formada será a primeira letra do futuro namorado, quiçá marido de um amor eterno.

Mulher
A mulher, especialmente, pós século XX, jamais será a mesma. Sua posição e papéis sociais foram, sensivelmente, modificados na maioria das sociedades humanas. No mínimo, um ouvir falar, documentado e propagado pelas antenas dos meios de comunicações, cada vez mais modernos, rápidos e globalizados. Muitas foram as invenções colocadas a seu dispor e que tiveram como conseqüência a evolução/revolução do seu papel sócio-cultural, até então, de sexo frágil. Absorvente, pílula anticoncepcional, camisinha, inclusive, feminina. AIDS. Mini-saia, silicone, carro, celular, aparelhos domésticos. Igualdade de direitos ao homem, garantida pela Constituição. Trabalho fora. Estudo. Direito à escolha do companheiro, divórcio, inseminação artificial, produção independente, desestruturação familiar. Pequenos ou grandes fatos que permitiram à mulher assumir novos e outros papéis na sociedade, além daquele milenar, de mãe e dona de casa, já sacramentados em todas as sociedades, desde o aparecimento da humanidade e a especificidade de gênero.

Algumas questões de gênero refletidas em diferentes manifestações folclóricas:

Gírias
O período menstrual recebe vários nomes, dependendo, inclusive, da classe social e faixa etária da mulher: boi, tá de boi, bezerra, Chico, estar com regra, incomodada, regrada, estar doente, mulher doente, estressada, nervosa e, mais recentemente, TPM.

Mitos e Tabus
Dar um filho ao marido, ser responsável pela concepção ou não de um novo ser, ter mais dever que prazer sexual, etc., permanecem como coisas de mulher.
Estar sempre “pronto” para o ato sexual, se preocupar com o “tamanho dos documentos”, fazer parte da natureza masculina, etc., continuam entendidas como coisas de homem.

Tabus Alimentares
Mulher grávida se comer "banana-gêmea" terá filhos gêmeos.
Ovo batido por mulher grávida cresce mais.
Ovo batido por mulher menstruada não cresce.

Crendices e Superstições
À mesa, caindo um talher, chegará uma visita próxima. Se for um garfo será um homem, se for uma faca, mulher. Também, quando se bota na mesa uma xícara de um tipo e o pires de outro, não se deve aceitar, para não ser mal-casado(a).

Frases feitas / Ditados Populares
Com mulher de bigode, nem o diabo pode.

Em casa que mulher manda, até o galo canta fino.
Entre marido e mulher, não se mete a colher.
Marido de mulher feia não gosta de feriado.
Mulher alheia é como árvore, só dá galho.
As três melhores coisas da vida: cerveja gelada, boi na invernada e mulher pelada.
As três piores coisas da vida: cerveja quente, boi doente e mulher da gente.
Mulher macho, nem o diabo pode.

Legendas de caminhão
Mulher bonita na beira da estrada é como música de carnaval, fácil de ser cantada.
Mulher de amigo meu é que nem cebola: eu como chorando.
Mulher de casa é igual a galinha de granja: gorda e sem gosto.
Mulher e cachaça em todo lugar se acha.
Mulher e café, só quente.
Mulher é como caju que se aproveita até o caroço.
Mulher é como parafuso, que tem cabeça mas não pensa.
Mulher feia e cheque sem fundo, protesto.
Mulher feia e frete barato eu não carrego.
Mulher feia e urubu comigo é na pedrada.
Se mulher fosse dinheiro havia muita nota falsa.
Coração de mulher é igual a lotação: sempre cabe mais um.

Piadas
Mulher tem que saber contar só até seis, pois não existe fogão de sete bocas.
Sabem quando a mulher vai ganhar seu lugar ao sol? Quando inventarem cozinha com teto solar!

Conclusão:
As questões de gênero são construídas através das muitas instituições sócio-culturais que compõem uma dada sociedade, entre elas, o folclore. Estão sujeitas à aculturação e apropriação de conhecimentos, à dinâmica de construção e evolução de saberes, à definição e reestruturação de status e papéis sociais, inclusive. Estão carregadas de uma forte dose de preconceitos, tabus e discriminações contra a mulher e a favor do homem, largamente difundidas ao longo de milênios da história da humanidade, refletidas no pensar, sentir e agir do povo. No aqui e agora, as relações sociais entre sexos encontram condições favoráveis para serem revistas, ampliadas, transformadas, retificadas ou ratificadas, conseqüentemente, tornam-se mais dinâmicas e mutáveis, neste começo do século XXI.
Fazendo parte do que é construído histórico-social e culturalmente e, não simplesmente, determinada pela natureza humana, as relações de gênero possibilitam a sua própria construção e reconstrução cotidianamente. Pela educação. Pela cidadania.


Referências Bibliográficas:
CASCUDO. Luis da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro.
MELLO. Luiz Gonzaga de. Mulher, Comparação e Machismo. FUNDAJ. Folclore 163.
SOUTO MAIOR. Mário. Os Mistérios do Faz-mal. 20-20.
LINHARES. Thelma Regina Siqueira. Coisas de Mulher e Folclore. Jangada Brasil.
nº 44. abril/2002. (www.jangadabrasil.com.br)

(*) Publicação FUNDAJ - Fundação Joaquim Nabuco. Série FOLCLORE, nº 305, Agosto/2005. Recife/PE.
(**) Professora e Pesquisadora de Folclore.

www.usinadeletras.com.br em 04/09/2005

sexta-feira, 6 de março de 2009

MULHERES, BORBOLETAS SEM CRISÁLIDAS


MULHERES, BORBOLETAS SEM CRISÁLIDAS
Thelma Regina Siqueira Linhares

Borboletas sem crisálidas bem que pode ser considerada a imagem simbólica da situação feminina nesse século XX, recém-findo, seja no contexto mundial, seja no Brasil, especificamente.
Vinda de uma situação histórica e milenar de submissão e exploração pelo sistema machista, foi, no século passado, que a mulher passou a ter papéis e status diferenciados daqueles já cristalizados nas relações de gênero - homem x mulher - através dos milênios ao longo da extensa história da humanidade no planeta Terra.
A imagem bíblica da criação da primeira mulher (Eva) a partir da costela do primeiro
homem (Adão), difundida nas sociedades e culturas de origem cristã, teria justificado por razões religiosas, até, o papel de submissão, de dependência, de obediência do sexo frágil ao sexo forte, ao longo de séculos de predominância da hegemonia cultural européia sob o resto do mundo.
Com a colonização do branco europeu, aqui no Brasil-colônia, a mulher ocupa posições e status diferenciados de submissão, sem muitas modificações ao longo dos quatro séculos e, às vezes, condicionados à raça e condição social.
A mulher branca, rica, conta com algumas regalias. É a matriz da numerosa família
patriarcal, responsável pela manutenção da riqueza e prestígio familiares, assegurados por casamento sólido e de conveniências, muitas vezes, acertado pelo pai e sem contato nenhum com o futuro consorte.
A mulher branca e pobre ou a mulher mestiça, quando solteiras, estavam submissas ao pátrio poder. Casadas, passam a dever obediência ao marido. Sem voz nem vez.
A mulher índia e a mulher negra, principalmente, são apenas objeto sexual de quem o branco colonizador tem posse e direito de uso, vida e morte. Além de mão-de-obra e mercadoria baratas. Sujeitas aos mandos e desmandos do seu senhor.

Os séculos passam lentamente. E, mais lentamente ainda, os costumes, a definição de direitos, o usufruir de conquistas históricas, nacional ou internacionalmente. Necessário que, em l857, 129 mulheres norte-americanas fossem sacrificadas pelo poder machista, vítimas de incêndio criminoso na fábrica em que trabalhavam e lutavam por direitos trabalhistas de redução de carga horária e licença-maternidade, para que se levantasse a bandeira feminina e feminista. Daquele fato histórico, em 8 de março, ficou o dia internacional da mulher, comemorado universalmente e sempre usado como ponto de reflexão da situação da mulher, por seus direitos como cidadãs e profissionais.

Mulheres, borboletas sem crisálidas, vêem chegar o século XX. E nesses últimos cem anos, quanta coisa aconteceu! Quanta luta, individual e coletiva! Quanta conquista conseguida! E quanto ainda a conquistar!

Muitas invenções e facilidades, quedas de tabus e preconceitos, mudanças de valores e de comportamentos foram construindo o perfil da nova mulher do século XX. Dia-a-dia, década após década.

A mine-saia, a pílula anti-concepcional, o absorvente, o silicone. O telefone celular, o carro, os eletrodomésticos. O rádio, a televisão, o computador, a internet. O direito ao voto, ao estudo, ao trabalho remunerado e fora do lar. A escolha do companheiro, o divórcio, a produção independente de filho, a desestruturação familiar. As lutas feministas, a emancipação feminina, os valores modificados...

Apenas alguns exemplos que contribuíram para dar suporte às profundas modificações de vida da mulher, sexo frágil, ao longo dos últimos cem anos. Com certeza, ilustram que a mulher jamais será a mesma, nesse tempo histórico de transição de séculos, de milênios. Nem os papéis e status femininos. E nem as relações de gênero.

Mulheres, borboletas, sem crisálidas.
Já é possível, então, comemorar neste novo milênio, as conquistas da mulher?
Não! Porque é a mulher que sofre mais violência no lar, pelos maridos e companheiros, apesar das leis que garantem seus direitos...
Não! Porque é a mulher que, desempenhando as mesmas funções que o homem, ganha
menos que o colega profissional...
Não! Porque em sua dupla jornada de trabalho, muitas vezes, não tem a parceria do companheiro, ficando sob sua responsabilidade, os afazeres domésticos e os cuidados mais específicos com a educação dos filhos, resquícios dos tempos de só rainha do lar...
Não! Porque muitas vezes, ainda, é sua inteira responsabilidade não procriar, abortar ou cuidar, sozinha, da cria, apesar dos tempos da AIDS e da necessidade vital de prevenção sexual...

Assim, ainda há muito a esclarecer, a conquistar, a definir, a assegurar direitos, para que as mulheres, borboletas sem crisálidas, possam viver, com sensibilidade, felicidade e responsabilidades, etapas definidas e belas de sua especificidade de gênero. Em casa, no trabalho, no Brasil, no mundo.

Mulheres, borboletas sem crisálidas anseiam por vôos mais altos e seguros. Vôos que
garantam a perpetuação da própria espécie. Sem traumas. Sem agressividades. Com
humanidade. Com cidadania.

www.usinadeletras.com.br em 09/03/2002

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

CONVERSAS DE GUARDA-CHUVAS


CONVERSAS DE GUARDA-CHUVAS
Thelma Regina Siqueira Linhares

Unidos Venceremos e Perpétua estavam bem satisfeitas. Afinal, após um longo verão, estava na hora de sair do guarda-roupa e ganhar às ruas da cidade. Voltar à ativa. Viver e conviver com as pessoas naquele novo período chuvoso.
E como gostavam da chuva! Fininha ou aguaceiro. Quase sempre gelada. Acompanhada de brisa ou de ventos de virar cabeça - haste - de sombrinha...
Unidos Venceremos, mais sociável, gostava de abrigar muita gente a sua volta. Lembrou que numa assembléia de sindicato, ocorrida na praça, abrigou cinco pessoas, todas atentas aos discursos políticos e participativas. Naquela ocasião se sentiu importante inserido aquele contexto político-social, até votou numa das questões, saltitando entre as cabeças dos trabalhadores. A gloria!
Perpétua é mais tímida e retraída. Costuma abrigar uma só pessoa. Mas o faz com muita responsabilidade, dificultando que se encharque na chuva benfazeja.
Outro dia, os dois confessaram num bate-papo informal, que, apesar da função social importante que têm, gostariam, sim, de ter seus momentos de folia, de sombrinha de frevo, levando equilíbrio e alegria ao passista feliz em pleno carnaval.

(*) www.usinadeletras.com.br (21/09/2003)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

AMOR DE CARNAVAL


AMOR DE CARNAVAL (*) (prosa)
Thelma Regina Siqueira Linhares

Era mais uma vez carnaval. Noite de carnaval. Última noite do reinado de momo daquele ano. (1982)
No clube, a orquestra tocava os primeiros acordes do Vassourinhas, hino oficial do carnaval pernambucano. E os foliões ensaiavam os passos na derradeira noite de folia, que prometia muita animação.
Fantasiados ou não, todos esperavam viver horas de alegria, entregues aos ritmos frenéticos do frevo, do maracatu, do caboclinho, do samba e das marchinhas - afinal, o carnaval pernambucano sempre foi muito rico e versátil, possuindo diferentes formas de se manifestar.
Ela, naquela noite, tinha caprichado.
Dançava.
Cantava.
“Tantos risos. Oh! Quanta alegria! Mais de mil palhaços no salão...”
De repente, seus olhos encontraram outros olhos.
E entre uma música e outra, os dois estavam brincando juntos. Muito suor. Alguma cerveja. E um carnaval pra lembrar.
Na quarta-feira de cinzas, a quarta-feira ingrata não foi. Marcaram de se encontrar. E se encontraram. E, ainda hoje, partilham da vida e de lembranças, de um carnaval que já se foi e se fez em quatro.

(*) publicado em www.usinadeletras.com.br 2003

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

AMOR DE CARNAVAL


AMOR DE CARNAVAL
Thelma Regina Siqueira Linhares

Quem disse que amor de carnaval é fantasia?
O deles já conta uma história.
Ele e ela se encontraram.
E se encantaram.
Sem máscaras.

Quem disse que amor de carnaval é passageiro?
O deles já floresce há alguns fevereiros.
E dois rebentos desenvolvem-se...
Sem pressa.

sábado, 24 de janeiro de 2009

ENTRE CONFETES E SERPENTINAS, O CARNAVAL DE PERNAMBUCO É DEMAIS!

Maracatu Leão Formoso
Maracatu Rural fundado em 1980, Nazerá da Mata

ENTRE CONFETES E SERPENTINAS,
O CARNAVAL DE PERNAMBUCO É DEMAIS!

Thelma Regina Siqueira Linhares (*)


Algumas características no carnaval de Pernambuco são inquestionáveis: a alegria e a
irreverência do folião, a duração da festa, que ultrapassa o tradicional tríduo momesco e a multiculturalidade das manifestações desse ciclo. Igualmente, unanimidade: Pernambuco é a terra do frevo e do maracatu, é a pátria dos bonecos gigantes e dos papangus, tem o maior bloco de rua do mundo e o maior carnaval participativo, entre outras peculiaridades. Apenas, quando se questiona preferências, é que as divergências aparecem. Qual o melhor carnaval – o de hoje ou o do passado? Qual o melhor frevo de todos os tempos? Qual o bloco mais animado? Quem mais compôs músicas de carnaval? Qual o mais animado ritmo carnavalesco? Difíceis conclusões. Isso acontece porque gosto não se discute... afinal, o que seria do vermelho se todos gostassem do amarelo? O importante é viver o carnaval na paz, sem excessos e violências, com responsabilidades porque, antes de 365 dias, novo carnaval de novo!... para alegria dos foliões e folionas, que para essas terras migram.

Para conhecer ou reviver o carnaval de Pernambuco é interessante um breve passeio na História, antes mesmo do formato pelo qual entendemos carnaval hoje. Povos antigos festejavam seus deuses com músicas, bebidas e luxúrias. Eram rituais que reverenciavam a terra e sua fertilidade, celebravam a volta da primavera, comemoravam vitórias guerreiras e conquistas de povos. Muitas vezes, estavam associadas a fenômenos astronômicos e a ciclos naturais. Grécia, Roma e Egito, apenas para citar as grandes civilizações da Antiguidade, tinham os seus rituais e festejos comemorativos. Na Era Cristã, a Igreja Católica, deu nova formatação aos antigos rituais pagãos, fazendo-os coincidir com datas predeterminadas do seu calendário, na tentativa de punir abusos, moralizar costumes e difundir a fé cristã. As comemorações começavam, então, no ciclo natalino e terminavam, exatamente, na Quarta-feira de Cinzas, quando iniciava a Quaresma - período de quarenta dias de dor e jejum em preparação à Semana-Santa e à Páscoa. Na época das Grandes Navegações, com a conquista e expansão européia nos continentes americano e africano, o carnaval, mais precisamente, o entrudo, também, foi importado, imposto e, depois aculturado pelos povos pagãos conquistados.

No Brasil, o que seria o Carnaval chegou como entrudo, herança portuguesa, desde os primórdios da colonização. Festa violenta e de muitos excessos e atrocidades. Verdadeira selvageria e barbárie, onde o encontro de grupos rivais terminava sempre em brigas, ferimentos e mortes. No período colonial, as Capitanias Hereditárias que deram certo - Pernambuco e São Vicente (São Paulo) - podem ser consideradas como os pólos nascedouros do entrudo brasileiro. Depois, a Bahia - primeira capital da colônia - e o Rio de Janeiro, capital escolhida para sede do governo da família real no Brasil e, posteriormente, capital do Brasil-Império e República (até 1960) difundiram as manifestações culturais da época. Por um longo espaço de tempo, o Rio de Janeiro monopolizou o carnaval brasileiro, ditando moda em termos de fantasias e concursos, marchinhas carnavalescas e difusão do samba. O desfile das Escolas de Samba, naquele Estado, é um mega espetáculo, tipo exportação e, há décadas, desperta interesse dos diferentes meios de comunicações de massa. Também, verdade, que hoje, o carnaval apresenta várias faces e pólos de animação, que, difundido pela mídia e explorado pelo turismo interno e externo, trata-se, com certeza, de uma das mais fortes referências de Brasil e de brasilidade.
Foi no século XIX, que o entrudo passou a ganhar mais espaço no Brasil, coincidindo com seu declínio na Europa. Os escravos, molhados, jogavam, entre si, ovos, laranja podre, farinha, restos de comida. As famílias brancas, se divertiam jogando água suja e até xixi nos passantes. Os ricos se divertiam em locais fechados, sob a influência direta da moda ditada na corte. A violência, praticados por muitos e independente da classe social, era intensificada no período. A repressão policial era forte na expectativa de coibir os excessos. Muitas manifestações populares eram consideradas marginais ou ficavam na clandestinidade. Aos poucos, o entrudo foi se modificando, se civilizando. Novos feitios e comemorações foram sendo incorporadas. As pequenas e grandes invenções dos séculos XIX e XX foram transportadas para as festas de Momo, contribuindo para tornar o carnaval no que conhecemos hoje, o ciclo de festejos e comemorações mais popular entre os próprios brasileiros e mais divulgado no estrangeiro. Bailes de máscaras a partir de 1840. Limões de cheiro (pequenas bolas de cera cheias de água perfumada) e frascos de borrachas cheias de vinho, groselha ou vinagre, precursores dos lança-perfume, esses introduzidos em 1885. O corso, correspondendo aos desfiles de carros alegóricos puxados a cavalos (charretes, cabriolés e aranhas) e que se popularizou a partir de 1889, antes mesmo do surgimento do automóvel. A modinha Ô Abre Alas, de Chiquinha Gonzaga e que foi registrada, oficialmente em 1889, como a primeira música carnavalesca, literalmente, abriu espaço para os diferentes ritmos e canções carnavalescas. O surgimento e evolução dos meios de comunicações de massa (o rádio, as gravações em discos, as transmissões televisivas, a internet e o celular, juntamente com a invenção e modernização dos meios de transportes coletivos, encurtaram cada vez mais as distâncias e facilitaram a ida e vinda dos foliões dos quatro cantos da Terra, permitindo que o planeta seja uma aldeia global, também na folia.

O carnaval de Pernambuco recebeu todas essas influências históricas, culturais e sociais personalizado-as. É multicultural. A pluralidade, valorizando ainda mais o carnaval nessas terras do Leão do Norte, tem a diversidade cultural costurada pela alegria e animação, sendo possível observar a miscigenação das raças formadoras do povo brasileiro e, aqui e ali, uma pitada de novas influências refletidas nos ritmos, danças, agremiações, blocos, culinária e bebida típicas.

“Quem é de fato, bom pernambucano
Espera um ano pra cair na brincadeira.
Esquece tudo quando cai no frevo
E no melhor da festa
Chega a quarta feira.”


A palavra frevo vem de ferver, “frever”, na pronúncia simples do povo, para o significado de fervura, efervescência, agitação - adjetivos para os foliões que se juntavam nas primeiras agremiações e pipocavam ao som das bandas de músicas que tocavam dobrados, polcas, marchinhas até surgir o frevo propriamente dito, enquanto gênero musical. O frevo é dança e é música, genuinamente pernambucano. A coreografia da dança recebe o nome de passo e é muito variada: parafuso, saci-pererê, boneco de Olinda, tesoura, saca-rolha, do caroá, etc. Passista, independente do gênero, é quem dança, em geral, acompanhado pela pequena e colorida sombrinha de frevo, que ajuda a manter o equilíbrio. Nos tempos do entrudo, o passista era um capoeirista, que jogava capoeira abrindo caminho - alas - para o frevo passar e protegendo os músicos da multidão que frevava frenética. O nome frevo foi adotado no início do século XX, mas foi na década de 30, que se definiram as três principais modalidades de frevo: Frevo-de-Bloco (cuja origem está ligada às antigas serenatas, sendo acompanhado por uma orquestra de Pau e Corda), Frevo-Canção (que apresenta uma introdução forte, à base de metais, seguida da canção) e Frevo-de-Rua (somente instrumental, predominando os metais). A presença da orquestra é essencial para a execução do frevo e o compositor de frevo tem de ser músico ou ter parceria ao escrever a pauta musical, pois, ao compor, tem que definir o que cabe a cada seção instrumental de uma orquestra ou banda. Inspiração e poesia, nesse caso, não é suficiente...

Vivenciar o carnaval de Pernambuco, experimentando todos os seus ritmos, danças e cores, talvez seja o maior desafio que o folião de fôlego enfrenta. Como já citado, o carnaval aqui é plural, multicultural. E onde quer que se vá - Litoral, Zona da Mata, Agreste ou Sertão - a alegria será uma constante e a saudade, em breve, uma doce lembrança.

“Na madrugada do terceiro dia
Chega a tristeza e
Vai embora a alegria
Os foliões vão regressando
E o nosso frevo, diz adeus a folia...
... A gente sente uma saudade sem igual
Que só termina
Com um novo carnaval.”



RECIFE
Atualmente, o que mais caracteriza o carnaval da capital pernambucana é uma tríade de manifestações: o frevo, o maracatu nação e o maracatu rural. A essa pluralidade de ritmos, músicas e danças acrescentam-se blocos, caboclinhos, tribos de índios, a la ursa, bois e ursos de carnaval e escolas de samba. Além de refletir a dinâmica dos costumes, valores e modismos, o carnaval se reinventa e se recria num ritmo próprio. Assim, já se foi a época dos bailes nos principais clubes sociais, onde o folião se esbaldava em quatro noites de folias, manhãs de sol e matinês para a garotada, sob a batuta dos maestros famosos que comandavam orquestras ao som de frevo, cirandas, sambas e marchinhas de carnaval. Os bailes, hoje, restringem-se a algumas prévias carnavalescas, destacando-se, em 2006, o 58º Bal-Masquê, o 42º Baile Municipal e o 28º Baile dos Artistas, onde a tradição dos concursos de máscaras e fantasias é mantida.

“Ei pessoal, vem moçada
Carnaval começa no Galo da Madrugada. (BIS)
A manhã já vem surgindo,
O sol clareia a cidade com seus raios de cristal
E o Galo da Madrugada, já está na rua, saldando o Carnaval”

Mas, é o Clube de Máscaras Galo da Madrugada que fez seu primeiro desfile em 1978, para reviver os carnavais do passado, que se tornou a expressão maior do carnaval de Recife. A agremiação, que mantém o título de maior bloco de rua no Guinness Book há mais de uma década, literalmente, invade as principais ruas e pontes do centro da cidade, no sábado de Zé Pereira, arrastando uma multidão de milhares de foliões, brincantes, simpatizantes ou trabalhadores do carnaval, ao som de freviocas, orquestras de frevo e trios elétricos tocando, exclusivamente, os ritmos de Pernambuco. Inclusive, as águas da bacia do rio Capibaribe servem de passarela para o bloco A Galinha D’Água que acrescenta mais beleza ao desfile anual do Galo da Madrugada.

“É da coroa imperial
É maracatu
Ele é da casa real.”

Os Maracatus de Baque Virado ou Maracatu Nação, cujas origens remontam às tradições de coroação dos reis de Congo e Angola, foram descritos desde o início do século XVIII. É a expressão mais forte do sincretismo religioso e cultural entre o branco dominador e o negro escravizado. O Rei e a Rainha, ricamente vestidos e coroados, são protegidos por um grande pálio, segurado por um Escravo, que o faz girar, simbolizando o movimento da Terra. Acompanhando-os há as Damas do Paço, algumas segurando as Calungas, que são bonecas de origem religiosa. Outras figuras da corte aparecem: Príncipe, Princesa, Duque, Duquesa, Embaixador e Baianas. Às vezes, incluem Caboclo de Pena (representando o índio brasileiro) e Meninos Lanceiros vestidos como guardas romanos. A orquestra do Maracatu Nação é composta por instrumentos de percussão (alfaias, zabumbas, taróis, caixas, ganzás, etc.) que tocam num ritmo compassado, que vai acelerando, enquanto uma corneta ou clarim anuncia a apresentação do Estandarte. A coreografia do Maracatu Nação é típica, com movimentos de mãos e braços acompanhando os batuques da percussão. A Noite dos Tambores Silenciosos acontece na segunda-feira de carnaval, em frente à Igreja do Pátio do Terço, quando a percussão de todos os maracatus silencia, à meia-noite, em reverência à Nossa Senhora do Rosário (padroeira dos negros) e a São Benedito, reforçando às origens afro-brasileiras do Maracatu de Baque Virado.

O Urso do Carnaval tem uma composição muito simples: o urso (um homem vestido por um velho macacão coberto de estopa que usa uma máscara feita de papel-machê) e o domador (que segura a corda que prende o urso). Dançam ao som de música própria ou de antigos sucessos do carnaval. Em geral, a orquestra de Urso de Carnaval é formada por sanfona, triângulo, ganzá, pandeiro e reco-reco. Pode haver um tesoureiro, que arrecada dinheiro entre os expectadores da folia.
Na versão infantil, a La Ursa é pura brincadeira. As crianças batem em latas e cantam o refrão em coro uníssono e animado. Felizes, conseguem apurar alguns reais no final da diversão.
“A la ursa quer dinheiro
Quem não dá é pirangueiro...”


O Boi do Carnaval é uma transformação do bumba-meu-boi do ciclo natalino. Com nova coreografia e colorido exuberante, algumas figuras são personagens populares do carnaval pernambucano: Bois, Burras, Cavalo Marinho, Mateus, Catirina e Babau comandados pelo capitão e tirador de loas trazem alegria e medo à criançada.

O Samba é outro ritmo do carnaval pernambucano e recebe influências do frevo, maracatu, capoeira e escolas de samba. Na década de 30, do século passado, aparecem as primeiras Escolas de Samba do Estado.

Os grupos de Afoxés são cada vez mais populares no carnaval de Pernambuco, embora venham perdendo as influências dos rituais do Candomblé. Seus integrantes, principalmente homens, passavam por uma preparação espiritual antes dos desfiles, o que já não acontece hoje. A presença da percussão (atabaques, agogôs e xerês) é essencial e
muitos cantos são na língua Nagô.

A programação oficial do carnaval do Recife, define vários pólos de animação, conforme a preferência do folião. No centro, destacam-se: Pólo Recife Multicultural (Marco Zero),
Pólo das Fantasias (Praça do Arsenal), Pólo Mangue (Cais da Alfândega), Pólo de Todos os Frevos (Avenida Guararapes), Pólo de Todos os Ritmos (Pátio de São Pedro), Pólo Afro (Pátio do Terço), Pólo das Agremiações (Av. Dantas Barreto), Pólo das Tradições (Pátio de Santa Cruz). Destacam-se, ainda, o carnaval nos bairros, nos chamados pólos descentralizados: Santo Amaro, Chão de Estrelas, Casa Amarela, Nova Descoberta, Alto
José do Pinho, Várzea, Ibura e Jardim São Paulo.


OLINDA
Distante do Recife 6 km, é o centro antigo da cidade que monopoliza o seu carnaval, no sobe e desce das ladeiras.

“Olinda esse meu canto
Foi inspirado em seu louvor
Entre confetes e serpentinas
Venho lhe oferecer
Com alegria o meu amor.
Olinda!
Quero cantar
A ti, esta canção
Teus coqueirais
O teu sol, o teu mar
Faz vibrar meu coração
De amor a sonhar
Minha Olinda sem igual
Salve o teu carnaval.”


A primeira capital do Estado ostenta os títulos de Patrimônio da Humanidade, de 1ª Capital Brasileira da Cultura e da Terra dos Bonecos Gigantes. Destaque para os inúmeros artistas plásticos e de artesanato que buscam inspiração ou residem na histórica cidade pernambucana. Nas ladeiras e no casario colonial sua sempre linda vista do horizonte atrai turistas o ano inteiro, particularmente no carnaval. E a partir da virada de um novo ano, já é carnaval em Olinda, quando prévias animadas de seus principais blocos e agremiações revezam-se nas semanas pré-carnavalescas. Destaque para o desfile das Virgens do Bairro Novo um dos primeiros blocos de homens travestidos. O Homem da Meia-Noite, fundado em 1932, abre oficialmente o carnaval olindense a zero hora do sábado de Zé Pereira. Considerado o pai dos gigantes, serviu de inspiração para o artista plástico Sílvio Botelho, que já criou centenas de bonecos gigantes, sendo, inclusive, o idealizador do Encontro de Bonecos Gigantes em Olinda, já tradição, que acontece na manhã da terça-feira, nas ladeiras de Olinda, reunindo todos os gigantes em desfile e arrastando milhares de foliões de todas as idades. Destaque para Marin dos Caetés, Vassourinhas, Pitombeira e Elefantes. O bloco do Bacalhau do Batata, há décadas, estica o carnaval para quarta-feira de cinzas para quem trabalha no período do tríduo momesco, sendo o pré-cursor do quero mais carnaval, que se espalha cada vez mais nos vários cantos do Brasil. Olinda, enfim, é a cidade que tem o maior carnaval participativo, que se organiza, irreverentemente, em inúmeros blocos, agremiações, grupos ou eu-sozinho. Basta querer. Os nomes dos blocos, troças e agremiações olindenses merecem destaque pela originalidade e irreverência.

“Tem mais que estar nessa
Fazendo misura na ponta do pé
Quando o frevo começa
Ninguém me segura.
Vem ver como é
O frevo madruga
Lá em São José
Depois em Olinda
Na praça do Jacaré
Bom demais, bom demais
Bom demais, bom demais
Menina vem depressa
Que esse frevo é bom demais.”



BEZERROS
Cidade distante do Recife cerca de 107 km e tem a BR 232 como via de acesso. É conhecida como a Terra dos Papangus. E, no domingo de carnaval, no centro da cidade e ao som de orquestras de frevo, acontece o grande encontro de centenas de papangus. A brincadeira surgiu no início do século XX, quando casados foliões fugiam de casa, escondidos pelas máscaras, para brincar o carnaval. Para manter as energias, comiam o angu (comida típica nordestina, à base de milho) na casa de amigos e parentes. Com o passar do tempo, o grupo de papangus foi aumentando, mas o segredo da identificação do folião foi preservado, se mantendo até hoje. Pessoas de todas as idades divulgam e mantém a tradição, muitas confeccionam sua próprias máscaras e Bezerros tem um motivo próprio na temática de seu artesanato.


ILHA DE ITAMARACÁ

“O mar estava tão belo
E um peixe amarelo eu vi navegar, navegar
Não era peixe não era
Era Iemanjá, Rainha
Dançando ciranda, ciranda
No meio do mar.”


A Ilha de Itamaracá fica distante do Recife 47 km e os acessos principais são pela BR 101 Norte, PE 35 e PE 15. A ponte sobre o Canal de Santa Cruz faz a ligação da ilha com o continente, através da cidade de Itapissuma. O referencial cultural da ilha pode ser considerado a ciranda, pois é a terra de Lia de Itamaracá. E, embora a Ciranda não seja típica do ciclo carnavalesco, a ele empresta seu ritmo e sua dança, sendo mais uma riqueza do carnaval de Pernambuco. Para dançar é só entrar na roda, dando-se as mãos. E, se a roda ficar muito grande, outra roda menor, imediata e sucessivamente é feita.


GOIANA
Distante do Recife 60 km, os principais acessos são pela BR 101 Norte, PE 15 e PE 01. Goiana está a aproximadamente 10 km da divisa de Pernambuco com a Paraíba. As suas principais manifestações carnavalescas são os caboclinhos e os maracatus rurais.
A origem indígena dos Caboclinhos ou Cabocolinhos é indiscutível. Está no figurino, onde penas multicoloridas são usadas em tangas e cocares, além de adereços diversos como colares, pulseiras, braçadeiras e tornozeleiras O grupo é formado por homens, mulheres e crianças com papéis definidos: cacique, mãe-da-tribo, pajé, matruá, porta-estandarte, perós (meninos e meninas), caboclos-de-baque, cordão de caboclos e de caboclas. Todos passam apressados, em filas, ao som das preacas (arco e flecha) e na exibição, contam, também, com um pequeno grupo de músicos, que toca inúbia (um pequeno flautim de taquara), caracaxá, tarol e surdo. A coreografia consiste em abaixar-se e levantar-se com agilidade, apoiando-se nas pontas dos pés e calcanhares, sob a marcação característica das preacas. Canindés e Carijós são as tribos de caboclinhos mais antigas de Pernambuco, ambas fundadas em1897.


NAZARÉ DA MATA
Cerca de 65 km separam o Recife e Nazaré da Mata - a Terra dos Maracatus Rurais - enquanto a BR 408 encurta a distância entre as duas cidades. O maior Encontro de Maracatus do Estado de Pernambuco acontece na segunda-feira de carnaval quando para Nazaré da Mata se dirigem grupos de outros municípios, lotando caminhões e ônibus ou realizando extensas caminhadas pelos canaviais da Zona da Mata.
Os Maracatus Rurais recebem outros nomes: Maracatus de Baque-Solto, Maracatus de Orquestra ou Maracatus de Trombone. Suas origens e histórias são ainda pouco conhecidas. Acredita-se que surgiram da fusão de folguedos diversos da cultura do interior do Estado, em especial, da zona canavieira e foi conquistando, gradativamente, espaço e status no carnaval pernambucano. Observa-se, ainda, um certo sincretismo religioso, quando homenagens aos orixás são feitas antes da saída dos grupos. A Boneca preta é calçada pela madrinha, isto é, consagrada e batizada com rezas e defumadores. Alguns Caboclos de Lança e de Pena desfilam atuados, isto é, protegidos pelas magias de cultos à Jurema e outras entidades afro-indígenas. O cravo branco ou vermelho, preso entre os dentes, simboliza esses rituais religiosos. O colorido das fantasias e dos adornos e o som produzidos dos chocalhos são os principais elementos visuais dos Maracatus Rurais. O personagem mais característico é o Caboclo de Lança, que tem o rosto pintado de urucum e segura uma lança de madeira torneada cuja ponta, aguda e comprida, tem cerca de 3O cm. Ele a segura com as duas mãos e a movimenta para cima, para baixo e para os lados, afastando a multidão, enquanto corre, salta e dança, num duelo imaginário. Usa um ceroulão (calça de chitão), a fofa (calça frouxa com franja por cima do ceroulão), meias de jogador, camisa de mangas compridas e de cor viva e uma grande gola toda bordada por milhares de lantejoulas e missangas, normalmente confeccionada por quem a usa. O surrão, armado por galhos, sustenta quatro ou cinco chocalhos e marca o ritmo e o andar do Caboclo de Lança. Um lenço amarrado à cabeça e, sobre ele, um chapéu de palha ornado de fitas de papel celofane, multicoloridas ou de uma única cor, muito vistoso e que dá leveza aos movimentos. Óculos escuros, um galho de arruda atrás da orelha e um cravo branco entre os dentes, completa o visual do Caboclo de Lança. Durante a exibição, o Maracatu Rural evolui, rapidamente, em círculos, onde os Caboclos de Lança correm por fora e as Baianas e Damas de Buquê dançam num outro, no interior. No centro ficam o Estandarte, a Boneca, o Rei, a Rainha e os Caboclos de Pena (Tuxáus). Um coro feminino acompanha a orquestra composta pela percussão (ganzá, tarol, cuíca, surdo e zabumba) e alguns instrumentos de sopro (gonguê, saxofone, corneta e trombone).


PESQUEIRA
Distante do Recife 209 km, tem a BR 232 como via de acesso. É conhecida como a Terra dos Caiporas, título que conquistou a partir de 1962, quando saiu o primeiro bloco carnavalesco de caiporas: homens, mulheres e crianças, vestindo terno e gravata e tendo um enorme saco de estopa na cabeça. O que era motivo de medo passou, assim, a ser motivo de alegria e brincadeira. Segundo a tradição, tochas sobrenaturais apareciam em cima das árvores, assustando e pregando peças nos caçadores e seus cães. Para acalmar as assombrações (caiporas) e fazer boas caçadas, muitos deixavam fumo e cachaça nos troncos das árvores, alimentando a lenda.


VITÓRIA DE SANTO-ANTÃO
Cidade que fica 51 km de distância do Recife e tem o acesso pela BR 232. O que caracteriza seu carnaval, que reúne mais de cem agremiações, é a rivalidade alimentada entre seus clubes, que desfilam carros alegóricos, apresentam fantasias luxuosas e realizam bailes. Os dois principais clubes (O Camelo e O Leão) mobilizam preferências de integrantes e moradores da cidade, que agem como torcedores fanáticos, especialmente no domingo e na terça-feira de carnaval, quando há os principais desfiles.


TRIUNFO
Localizada no sertão pernambucano, Triunfo fica a 402 km de distância do Recife. A BR 365 e a BR 232 são as principais vias de acesso. Os Caretas são responsáveis pela originalidade do carnaval naquela cidade. Fantasiados e mascarados, de todas as idades, usam chicotes que fazem estalar no ar. Anualmente é realizado concurso que elege o Careta mais bem caracterizado.


ABREU E LIMA
Fazendo parte do Grande Recife, fica 20 km de distância da capital. As vias de acessos são
a BR 101 Norte, a PE 15 e a BR 408. Além dos maracatus rurais e das cirandas, destacam-se as Rodas de Coco, que cada vez mais se incorporam aos festejos carnavalescos.

“Ninguém pode resistir
O frevo desses que faz,
Demais a gente se distinguir
Deixe o frevo rolar
Eu só quero saber
Se você vai brincar
Ah! meu bem sem você
Não há carnaval
Vamos cair no passo e a vida gozar.”



E quem quer curtir sol, céu e mar e, ainda, brincar carnaval dos bem animados, muitas outras opções há, ao norte ou ao sul do Recife, em pleno Litoral pernambucano.

(Litoral Norte)
PAULISTA
Distante do Recife 15 km, tem por principais acessos a PE 15 e PE 01. Suas principais praias são: Janga, Pau Amarelo, Nossa Senhora do Ó, Conceição e Marinha Farinha.


IGARASSU
Distante do Recife 26 km, as vias de acessos são: BR 101 Norte, PE 15 e PE 01.


ITAPISSUMA
Distante do Recife 36 km, tem a BR 101 Norte como principal via de acesso.

(Litoral Sul)
JABOATÃO DOS GUARARAPES
Distante do Recife 18 km e acessos por ruas e avenidas do Recife. Piedade, Candeias e Barra de Jangada são suas principais praias.


CABO DE SANTO AGOSTINHO
Distante 41 km do Recife tem acesso pela BR 101 Sul e pela PE 07. Possui belas praias entre elas: do Paiva, Itapuama, Pedra do Xaréu, Enseada dos Corais, Gaibu, Paraíso, Calhetas e Suape.


IPOJUCA
Distante do Recife 57 km, tem a PE 60 e a BR 101 Sul, como as principais vias de acesso.
Suas principais praias - Porto de Galinhas, Muro Alto, Maracaípe e Serrambi - cada vez mais se firmam no cenário turístico nacional e internacional, pela beleza de suas paisagens naturais, destaque na mídia, status dos turistas, investimentos realizados e eventos náuticos promovidos.


TAMANDARÉ
Distante da capital pernambucana 114 km, tem a PE 60 como via de acesso.


SÃO JOSÉ DA COROA GRANDE
Distante do Recife 124 km, as principais vias de acesso são PE 60 e BR 101 Sul.


Na Região Metropolitana do Grande Recife, o carnaval é também criativo e multicultural, pois é comum a participação de grupos e agremiações visitantes ou contratadas para shows, durante o período das folias de momo.

CAMARAGIBE
Distante do Recife 10 km. Acessos pela BR 408 e avenidas do Recife.


A Zona da Mata, juntamente com o Litoral, ocupa 11% do território do Estado. Nos dias de momo, animação, originalidade e todos os ritmos do carnaval de Pernambuco dão colorido especial ao ciclo carnavalesco nas cidades que, oficialmente, não fazem parte do roteiro da folia. Opção a mais para seus moradores e aqueles que preferem dias mais tranqüilos e longe da rotina do cotidiano.

MORENO
Distante da capital: 28 km. Acessos pela BR 232 e PE 07. Além da paisagem da Zona da Mata, o frevo e maracatu rural são tradições no carnaval de Moreno.


A Zona do Agreste totaliza 19% do Estado e os festejos do carnaval fazem parte da cultura, embora o ciclo junino é que mobilize as preferências e dinamize o turismo e a economia locais. Essa zona natural do espaço geográfico pernambucano oferece paisagens de brejos e caatingas, clima tropical sub-úmido e economia baseada na atividade agro-pecuária.

CARUARU
Distante do Recife 130 km, tem o acesso pela BR 232.


GARANHUNS
Distante 228 km do Recife, tem acesso pela BR 232, BR 104, PE 117, PE 126 e BR 423.


O Sertão representa 70% do território pernambucano, predominando clima tropical semi-árido, chuvas escassas e vegetação de caatinga.

ARCOVERDE
Distante do Recife 252 km, tem acesso pela BR-232.
Arcoverde tem uma variedade de manifestações culturais destacando-se Samba de Coco, Literatura de Cordel, Bois e Forró. Alguns grupos e artistas de lá têm projeção nacional e, no carnaval, exercem influências.


PETROLINA
Distante do Recife 714 km. Os acessos são pela BR 232, BR 122, BR 428 e BR 116.

Finalizando este artigo, os versos de mais um frevo pernambucano, que traduzem a filosofia de vida do povo daqui, afinal, entre confetes e serpentinas o carnaval de Pernambuco é demais!

“Quando a vida é boa
Não precisa pressa
Até quarta-feira
A pisada é essa
Prá que vida melhor
Fale quem tiver boca
Eu nunca vi coisa assim
Oh que gente tão louca”


(*) Professora e pesquisadora de Folclore.
thelmalinhares@bol.com.br
Recife, fevereiro de 2006